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  • Foto do escritorLuan Radney

Rita Lee dedicou capítulo de autobiografia a comunidade LGBTQIA

Em trecho de Rita Lee: outra autobiografia, lançado nesta segunda (22), cantora contou episódio com fã que desistiu de tirar a própria vida após ouvir suas músicas



Rita Lee dedicou um capítulo de Rita Lee: outra autobiografiaà juventude - e especificamente aos jovens da comunidade LGBTQIA+. A obra, escrita pela cantora e editada pelo jornalista Guilherme Samora, foi lançada nesta segunda-feira (22) pela Globo Livros, e nela Rita, que conta como foram os últimos anos de sua vida, da descoberta do câncer de pulmão, em 2021, até os dias finais - a cantora morreu no último dia 8.


Rita Lee: outra autobiografia segue o formato apresentado anteriormente em Rita Lee: uma autobiografia, registro anterior em que relembra as memórias de sua carreira, como a pessoa pública Rita Lee, sendo por vezes "corrigida" por Phantom, um "editor fantasma" que é o próprio Samora, maior pesquisador brasileiro sobre a artista. Aqui, ela revela um lado mais privado e a rotina do tratamento - mas também suas impressões e momentos vividos nos últimos tempos. Em um dos trechos, Rita relembra a participação para a Rolling Stone Brasil, em novembro de 2022 - última capa de revista estrelada por ela em vida.





Dentre as outras memórias compartilhadas, uma se refere especificamente aos jovens fãs, e àqueles da comunidade LGBTQIA+, que encontraram nela e em suas músicas, um reflexo. Em um trecho, cedido pela Globo Livros para a Rolling Stone Brasil, Rita relembra o caso de um jovem rejeitado pela família por ser gay, que a procurou após desistir de tirar a própria vida. O motivo teria sido a identificação que encontrou nas músicas de Rita Lee.


No trecho, Rita assume sua melhor personagem 'vovó Rita', enchendo as páginas de conselhos para quem enfrenta situações como essa. E escreve: "dá vontade de pegar todos no colo e cantar baixinho no ouvido deles: 'Você não está só, é só um nó que precisa ser desfeito'"



"A garotada"


Trecho extraído do livro Rita Lee: Outra Autobiografia lançado pela Globo Livros e liberado para a Rolling Stone Brasil, mediante crédito obrigatório. Não pode ser republicado.





Volta e meia recebo cartinhas de fãs, e alguns são bem jovens, contando como meu trabalho com a música mudou a vida deles e lamentando que antes não tinham idade para assistir a um show meu.


Fico no céu lendo essas coisas e me emociono quando escrevem que não são aceitos pelos pais por serem diferentes, e como minhas músicas são uma companhia e os libertam nessas horas de solidão.


Dia desses, um menino, rejeitado pela família por ser gay, me disse que pensou até em desistir desta vida, mas que ao ouvir minhas músicas decidiu ficar.





Dá vontade de pegar todos no colo e cantar baixinho no ouvido deles: “Você não está só, é só um nó que precisa ser desfeito”. A gente, quando muito jovem, tem um pé no “eu contra o mundo”. Quando eu era “uma adolescente contra o mundo”, desenhei numa cartolina uma ilha deserta rodeada por tubarões e escrevia nela o nome das personas non gratas que eu mandaria pra lá. Assim, eu desopilava o fígado do ódio. Do outro lado da cartolina, desenhei uma ilha paradisíaca onde eu gostaria de ficar com gente bacana. A ilha do ódio tinha professores, alguns vizinhos, parentes chatos, colegas falsianes, Natalie Wood e quem mais eu fosse odiando. Na ilha do amor era só James Dean e eu.


Mas sinto que é mais complicado ser jovem hoje, já que nunca tivemos essa superpopulação no planeta: haja competitividade, culto à beleza, ter filho ou não, estudar, ralar para arranjar trabalho, ser mal remunerado, ser bombardeado com trocentas informações, lavagens cerebrais.


Queria dar beijinhos e carinhos sem ter fim nessa moçada e dizer a ela que a barra é pesada mesmo, mas que a juventude está a seu favor e, de repente, a maré de tempestade muda, fazendo o barquinho seguir até sua ilha deserta e ensolarada de amor. Diria também para não planejarem nada a tão longo prazo, que a frustração pode assombrar; o que não significa não ter sonhos, apenas que eles não caem do céu.





Queria dar beijinhos e carinhos sem ter fim nessa moçada e dizer a ela que a barra é pesada mesmo, mas que a juventude está a seu favor e, de repente, a maré de tempestade muda, fazendo o barquinho seguir até sua ilha deserta e ensolarada de amor. Diria também para não planejarem nada a tão longo prazo, que a frustração pode assombrar; o que não significa não ter sonhos, apenas que eles não caem do céu.


Diria também um monte de clichê: que vale a pena estudar mais, pesquisar mais, ler mais. Diria que não é sinal de saúde estar bem-adaptado a uma sociedade doente, que o que é normal. para uma aranha é o caos para uma mosca, que uma coroa não é nada além de um chapéu que deixa entrar água, que todo dia o mundo se afoga no caos e vai ser difícil achar um lugar para observar o fim dos tempos de camarote.


Meninada, sintam-se beijados pela vovó Rita. Trecho extraído do livro "Rita Lee: Outra Autobiografia" (p. 123-124) lançado pela Globo Livros e liberado para a Rolling Stone Brasil, mediante crédito obrigatório. Não pode ser republicado!








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