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  • Foto do escritorLuan Radney

Por que grupos brasileiros não voltarão a se reunir no palco como fizeram os Titãs

Diferenças irreconciliáveis impedem o retorno de bandas, apesar dos pedidos do público; Na direção contrária, Barão Vermelho e O Rappa podem voltar aos shows.


(Secos & Molhados no auge do sucesso, com Gerson Conrad, Ney Matogrosso e João Ricardo. Ney diz que personagem criado para banda “ficou no passado”, e João bloqueia qualquer possibilidade de reuniãoDivulgação)



O ano de 2023 ficará marcado na história do showbiz brasileiro pela turnê Titãs Encontro — aquela que, depois de mais de 30 anos, reuniu nos palcos do Brasil os sete integrantes vivos do icônico octeto paulistano, para celebrar quatro décadas do grupo. O frisson pelas reuniões das formações originais/clássicas de grandes bandas — ou mesmo ressurreição das que estavam extintas — deu o tom para o mercado, ainda aquecido pela demanda por grandes shows que fora reprimida pela Covid.


Depois de um hiato de seis anos, o NX Zero, um dos grandes sucessos do rock brasileiro dos anos 2000, voltou com a turnê Cedo ou Tarde. Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, integrantes da Legião Urbana, correm o país com o show As V Estações. E o entusiasmo vai além do rock, com reuniões das formações clássicas de dois fenômenos pop, Só Pra Contrariar e É o Tchan. Eis que nas redes, livres das amarras da realidade e num exercício de pura imaginação, fãs começaram a reivindicar voltas impossíveis. São bandas cujos músicos seguem vivos — porém, irreconciliáveis.



Para Charles Gavin, que voltou a tocar bateria nos Titãs, essa fixação do público pela volta das bandas em formações icônicas “faz parte da cultura da música pop há muito tempo”.


— Quando o Pink Floyd se reuniu para tocar quatro músicas (em 2005, no festival Live 8) houve especulações de que eles poderiam voltar, de que seria uma turnê incrível... e não aconteceu. Mas o desejo para que isso acontecesse era gigante.


‘Está no campo da utopia’

Um dos mais pedidos é o Engenheiros do Hawaii do seu período de maior sucesso, com Humberto Gessinger (baixo, guitarra, teclados e vocais), Augusto Licks (guitarra) e Carlos Maltz (bateria) — a que estreou no segundo álbum da banda, “A revolta dos dândis” (1987), foi sacramentada com o LP “Gessinger, Licks & Maltz” (1992) e seguiu até 1993, com o álbum ao vivo acústico “Filmes de guerra, canções de amor”, após o qual Licks deixou o grupo.


(Engenheiros do Hawaii com seu trio clássico: Carlos Maltz, Humberto Gessinger e Augusto Licks. Hoje, os três pouco se falam, mas Maltz e Licks já tocaram com uma banda cover gaúcha de Engenheiros — Foto: Divulgação)



Hoje, Humberto se dedica a sua carreira solo, Carlos à astrologia e psicologia e o Licks a projetos musicais e jornalísticos. O ex-baterista chegou a escrever na quinta-feira no seu Instagram, sobre essa volta do trio clássico dos Engenheiros: “Quem vive no passado é alma penada.” Os três quase nada se falaram desde os anos 1990, mas a expectativa por um revival do trio não cessa.



— Existe hoje uma quantidade incrível de bandas covers dos Engenheiros. Tem o Capitão Sibéria no Rio, o Várias Variáveis em Brasília, o Engenheiros do Uai em Belo Horizonte, o Engenheiros sem CREA no Rio Grande do Sul... — enumera Augusto Licks, de 67 anos, que, assim como Maltz, chegou a participar de apresentações do cover gaúcho. — Tem uma galera que quer ouvir Engenheiros, mas não tem como.


O interesse das novas gerações também tem sido reacendido pelos Secos & Molhados, um dos maiores fenômenos comerciais do rock brasileiro, que há exatos 50 anos vendeu mais de 1 milhão de cópias de seu LP de estreia, gravado por Ney Matogrosso, Gerson Conrad e João Ricardo — que recentemente tentou, sem sucesso barrar na justiça o uso de suas músicas numa série de TV sobre o grupo, “Primavera nos dentes”.

— A gente sabe que isso está no campo da utopia. Além de tudo, Ney tem deixado bem claro que o personagem que ele criou para os Secos & Molhados ficou no passado — explica Gerson, que este ano teve gravada por Ney uma de suas composições mais recentes, “O fio do meu destino”. — Em todas as vezes que se tentou voltar, o João Ricardo foi contra, e desde a última negativa, não tenho tido mais contato com ele.


‘Muito, muito ocupado’

Uma das voltas mais desejadas é a da formação clássica do Sepultura, até hoje a banda brasileira de rock mais conhecida no exterior. De um lado, estão hoje Paulo Xisto (baixo) e Andreas Kisser (guitarra), levando adiante o grupo. De outro, os irmãos Cavalera, Max (guitarra e vocais) e Iggor (bateria), que fundaram o Sepultura em 1984 e o deixaram, respectivamente, em 1996 (Max ficou do lado de sua mulher, Gloria, então empresária da banda) e 2006.


(Sepultura nos tempos de “Arise” (1991): Andreas Kisser, Max Cavalera, Paulo Xisto e Iggor Cavalera. Hoje, Andreas e Paulo levam o grupo adiante, enquanto os irmãos Cavalera formaram o Cavalera Conspiracy e fazem questão de regravar sua própria versão do antigo repertório do Sepultura — Foto: Divulgação)



Sob o nome de Cavalera Conspiracy, Max e Iggor têm feito shows com repertório do Sepultura e esta sexta-feira lançaram regravações integrais dos primeiros discos do grupo: o EP “Bestial devastation” (1985) e o álbum “Morbid visions” (1986) — o que mostra como a volta do Sepultura clássico também é algo muito improvável.



Não bastasse isso, em fevereiro, em entrevista à Rock Interview Series, Max Cavalera disse não precisar de uma reunião com Andreas e Paulo: “Estou muito, muito ocupado agora com todos os projetos, porque tenho muitos. E já estou tocando um monte de coisas antigas com meu irmão. Para mim, isso preenche o vazio.”


Diferenças irreconciliáveis

Para Charles Gavin, a falta que têm feito bandas brasileiras da década de 1980, como Titãs, Engenheiros e Sepultura, tem uma explicação simples:


— A nossa geração do rock foi aquela que se posicionou politicamente num momento político muito forte. Hoje, os protestos migraram para as redes sociais, para internet. A música, hoje, é mais algo para entreter.



Mas bandas com forte pegada de entretenimento também têm tido a sua cota de pedidos pela volta das primeiras formações. É o caso da Blitz com a bateria de Lobão — sim, o sujeito da “vida bandida” estava com a ensolarada trupe de Evandro Mesquita e Fernanda Abreu até praticamente o lançamento do primeiro disco.


(Vímana com Fernando Gama, Lobão, Luiz Paulo Simas, Lulu Santos e Ritchie. Apesar de todo esse talento reunido, banda não decolou e acabou sendo um celeiro para carreiras solo — que hoje impedem uma reunião — Foto: Divulgação)



Antes, nos anos 1970, Lobão esteve envolvido em outra banda cuja volta é o sonho de muita gente: o Vímana, grupo de rock progressivo que além dele tinha Lulu Santos e Ritchie. O grupo participou de festivais como o Hollywood Rock em 1975, lançou o compacto “Zebra/Masquerade” e gravou um LP inédito até hoje. O retorno, por ora, é inviável, já que Lulu e Ritchie estão a toda com suas respectivas turnês.


E há ainda quem deseje ardentemente o retorno do extinto Kid Abelha com o quarteto que gravou seus dois primeiros e bem-sucedidos LPs “Seu espião” (1984) e “Educação sentimental” (1985).



Além de Paula Toller (vocais), George Israel (sax) e Bruno Fortunato (guitarra), o grupo tinha Leoni, baixista e compositor principal. Ele saiu em 1986, após uma briga nos bastidores de um show, no qual Paula teria atirado até um pandeiro em sua direção.


(Kid Abelha em 1984, com Bruno Fortunato, Paula Toller, George Israel e Leoni — então principal compositor da banda, que saiu em 1986 após uma briga nos bastidores de um show. “É complicada essa volta, mais por razões pessoais do que musicais”, diz Leoni, indenizado pela ex-Paula em 2017 e processado por ela em 2018 — Foto: Divulgação)



Mais recentemente, os dois se viram envolvidos em processos judiciais mútuos. Leoni teve que pagar indenização a Paula por divulgar um trecho alterado de “Pintura íntima” (música dos dois) nas redes sociais para favorecer o então candidato Fernando Haddad durante campanha eleitoral de 2018. E ela teve que indenizar o ex-parceiro por ter usado “Como eu quero” como título da turnê solo feita em 2017.


— É complicada essa volta, mais por razões pessoais do que musicais — admite, com bastante tato, Leoni. — Gosto muito dos LPs do Kid do qual participo, tenho muito orgulho deles, mas acho que não rola. E, além do mais, a banda teve uma carreira mais longa do que esses dois discos. Mas continuo fazendo muita coisa com o George Israel.



Sócio-diretor da Peck Produções, escritório por trás de eventos como o Rock Brasil 40 Anos e Festival de Inverno, Péricles Mecenas já fez a sua lista de desejos (estes, mais realizáveis).


— Em 2024, O Rappa completa 30 anos desde a primeira turnê. Eles estão parados desde 2018. Sugeri ao Marcelo Falcão (vocalista) e Lauro Farias (baixista) uma tour de 30 shows pelo Brasil — confidencia. — Também sonho em realizar uma tour dos 45 anos do Barão Vermelho, em 2027, com todos os ex-integrantes junto aos quatro que levantam a bandeira da banda até hoje.


‘Sinto uma melancolia’

Na contramão da onda, vem o DJ Zé Pedro, grande especialista em pop brasileiro. Ele, que jamais imaginou ver o Rock Brasil dos 80 sobrevivendo às décadas seguintes (“visto que aquelas letras e canções eram um instantâneo de uma juventude cujos sonhos definitivamente envelheceram”) se pergunta hoje se Cazuza e Renato Russo entrariam nessa onda ou estariam vociferando contra seus contemporâneos.


— Me recuso a ir a esses shows porque sinto uma melancolia e uma angústia de confirmar que somente o passado tem lotado arenas e estádios, atrasando o futuro dos novos que não param de chegar — ataca ele.









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